O ofício da beleza: artesanato e design colombiano em Cartagena

Um segundo guia de compras em Cartagena: de Las Bóvedas à La Serrezuela, as mãos que fazem um país bonito.

Orquídea de vidro com velas vermelhas na Casa Salvaje

O primeiro guia acompanhou as lojas ao longo de um dia. Este acompanha outra coisa: as mãos. As que ergueram a muralha pedra por pedra, as que esculpiram em madeira uma praça de touros inteira, as que ainda tecem em La Guajira, trançam a cana no vale do Sinú e puxam a prata em Mompox até virar renda. Dá para comprar Cartagena em butiques de luxo, sim, mas o que você leva de verdade para casa é o ofício de um país inteiro.

I · A muralha

Las Bóvedas, de quartel a ateliê

No extremo norte da cidade amuralhada, entre os baluartes de Santa Catalina e Santa Clara, vinte e três abóbadas se alinham sob uma longa arcada amarela. Foram construídas no fim do século XVIII, no último grande esforço para blindar a cidade, com a assinatura do engenheiro Antonio de Arévalo: paredes à prova de bombas para guardar pólvora, provisões e tropas. Durante as guerras de independência e boa parte do século XIX, viraram prisão, e dizem que na maré alta o mar se infiltrava nas celas dos presos políticos.

Hoje cada abóbada é uma loja de artesanato. É a parada mais turística deste guia e pede bom olho: entre os suvenires de produção em série há redes, mochilas e entalhes que valem a visita. A recompensa maior é o próprio lugar, com a brisa do mar entrando pelos arcos enquanto o sol se põe.

Leve para casa uma rede tecida ou uma mochila, depois de percorrer várias abóbadas.

O que você leva de verdade de Cartagena é o ofício de um país inteiro.

II · A arena de madeira

La Serrezuela, onde a praça de touros rugia

Durante boa parte do século XX, Cartagena teve uma praça de touros feita inteiramente de madeira, com arquibancadas, balcões e grades entalhadas que lembravam mais um teatro do que uma arena. Quando as touradas acabaram, virou circo e palco de festivais de música caribenha; em 1995 foi declarada Monumento Nacional e, ainda assim, quase se perdeu. Depois de anos de obras, foi restaurada com sua estrutura de madeira intacta e hoje, sob essas mesmas arquibancadas, abriga um dos shoppings mais bonitos do país.

Malva

A primeira loja de departamentos de luxo da Colômbia com sotaque latino-americano abriu aqui, na La Serrezuela, em 2019. Reúne sob um mesmo teto os designers que moldam a moda da região, com nomes como Johanna Ortiz, Agua Bendita, Andrés Pajón e as joias de Mercedes Salazar, ao lado de marcas novas que ainda são difíceis de encontrar em outros lugares.

De Cartagena expandiu-se para Bogotá, Barranquilla, Lima e Cidade do Panamá, mas a casa original continua sendo esta.

Leve para casa uma peça de um designer colombiano que você ainda não conhecia.

Le Collezioni

Durante anos, a Le Collezioni foi a casa do luxo internacional em Cartagena, no antigo Estanco del Tabaco da cidade amuralhada, a casa colonial do tabaco. Hoje está na La Serrezuela, com marcas como Ferragamo, Tod's, Santoni, Paul Smith, Hackett e Furla.

É a parada para o que não se fabrica na Colômbia: o mocassim italiano, a camisa inglesa, a bolsa que acompanha você por anos.

Leve para casa um par de mocassins para as noites de verão.

III · O Caribe na pele

Duas marcas que vestiram o calor

Existe uma maneira colombiana de se vestir para os trópicos: tecidos que se movem com a brisa, cores que não têm medo do sol, peças feitas à mão em oficinas de mulheres. Estas duas marcas a levaram longe, e ambas têm casa na cidade antiga.

Beatriz Camacho

Nasceu em Cartagena em 1966 e, embora seu ateliê fique em Barranquilla, abriu sua primeira butique na cidade natal, na Calle de la Inquisición. Cartagena aparece repetidas vezes em seu trabalho: vestidos amplos e arejados, mangas que flutuam, uma feminilidade etérea feita para caminhar devagar ao sol.

A rua não poderia ser mais simbólica. A poucos passos fica o Palácio da Inquisição, onde durante dois séculos foram julgados os que ousavam ser diferentes; hoje a mesma rua vende liberdade em forma de vestido.

Leve para casa um vestido longo e leve para o pôr do sol na muralha.

Agua Bendita

Catalina Álvarez e Mariana Hinestroza a fundaram em Medellín em 2003, ainda estudantes de design, costurando biquínis com retalhos de tecido. Hoje seus trajes de banho são feitos à mão por centenas de artesãs colombianas e vendidos no mundo inteiro.

A loja na cidade antiga é uma de suas flagships, e a marca tem também uma linha de luxo, Agua by Agua Bendita.

Leve para casa um traje de banho feito à mão para um dia nas ilhas.

IV · As mãos da Colômbia

Artesanías de Colombia

Se existe uma loja onde cabe o país inteiro, é esta. A Artesanías de Colombia é a empresa nacional que trabalha com artesãos de todas as regiões, e sua loja na cidade antiga reúne o melhor dos seus ofícios com a garantia de que cada peça é autêntica.

Aqui estão as mochilas wayuu, que, segundo a tradição de La Guajira, foram ensinadas por Wale'kerü, uma aranha que tecia à noite faixas de mil desenhos. Aqui está o sombrero vueltiao, trançado em caña flecha pelo povo zenú do Sinú e transformado em símbolo cultural da nação. E aqui está a filigrana de Mompox, fios de prata tão finos que as joias parecem renda. Cada objeto carrega sua região, seu povo e sua história.

Leve para casa um sombrero vueltiao de muitas voltas ou um par de brincos de filigrana de Mompox.

Epílogo

A outra metade do guia

Esta é a segunda parte de uma jornada. A primeira, A cidade das coisas belas, acompanha um dia pelas lojas de design da cidade antiga: St Dom, Johanna Ortiz, Silvia Tcherassi, Casa Chiqui e outras. No meio do caminho, o melhor plano é sentar-se à mesa: um aperitivo no La Domenica, o fogo do Kanibal e a noite longa no SLVJ.

Caderno de endereços

Tudo a uma caminhada da Casa Salvaje, Calle Santa Teresa #32-41.